Sunday, February 25, 2007

The lazy angel



Between midnight and dawn, baby we may ever have to part,
But there's one thing about it, baby, please remember
I've always been your heart.

Johnny Temple



(uma esfera oca e protuberante. assim é a minha cabeça de noite quando coloco os meus fones de ouvido. uma esfera oca e protuberante. Micaela me espera na cama. não se incomoda com a minha mania de bater com as pontas dos dedos na cabeça. faço isso para ter certeza de que está oca, de que as pancadinhas ecoam nos ouvidos tampados. não, não é bem isso. é somente mais uma forma de expressar a minha monotonia, mas me divirto com o passatempo assim mesmo. a música termina.) você quer água? não? não querida, não vou deitar ainda, quero fumar... acende um pra mim, por favor? (...) sabe amor, não sei o que você ainda espera de mim. do que estou falando? de tudo isso, todo esse enfado, toda essa indolência e principalmente esse papo de complexidade. por favor, não me interrompa agora. eu sei, eu sei que os cachorros estão latindo. deixe-os. em pouco tempo voltarão a uivar e tudo volta ao normal. (...) tenho saudades dos seus olhos. verdes, azuis, cinzas... hoje em dia só quer falar dessa cor violeta que te sufoca. a misantropia nunca foi o seu forte. Charlotte e Donovan perguntaram por você. pensam intimamente que sou eu o culpado dessa sua decisão bizarra. eles também gostavam de quando você usava as asas, respirava ares alpínicos. basta! o que há de complexo nisso? por que não me cospe na cara então? talvez assim teria certeza de que me ama de fato! sim querida! o amor é feito também de fel! mas tudo o que você quer são os cães, esses lençóis ensebados e falar de seres claviculares. desde quando se tornou tão pudica? clavículas meu bem? gostava dos seus modos para cones, os côncavos e os convexos. ah, claro, tem o faquir! amaldiçôo o dia em que resolvi comprar aquele faquir pra você! o quê? você quer que eu o chame novamente? ok! entre faquir! faça uma apresentação, entretenha-a. ai, ai... a corda bamba mais uma vez... bem, ao menos veio bêbado desta feita. aí está! bravo! quebrou a clavícula! justo a clavícula! vá! saia já! pobre homem... gosta de você, gosta de te agradar. outro dia chegou aqui com um corvo num ombro e uma pomba no outro. disse que estava trabalhando num novo número. acho que anda assistindo muitos filmes ingleses e todas essas coisas tolas... não, não durma ainda... tenho muito o que dizer. me escuta, me escuta, presta atenção... lembra de quando nos conhecemos, lembra? como era gostoso te ver cortando o espaço, criando vértices inefáveis com aquele balé vertiginoso! dançar contigo era um sobrevôo infinito. dali de cima podíamos recriar o mundo somente com o nosso suor, o nosso cheiro, a mão que tocava o rosto, a mão que tocava no sexo, a mão que tocava... não! não estou criando amálgamas! não vê que tento chegar naquilo de mais simples e belo que tínhamos? é lá que quero chegar: nas noites que caminhávamos seguindo as pistas das luzes de janelas entreabertas da cidade, revoluteando com desconhecidos e vagabundos que nos acompanhavam até uma pracinha muito íntima onde nos deixavam para bebermos vinho e nos beijarmos. você falava dos seus amigos e amantes, eu fingia prestar atenção em tudo, e você sabia disso, mas lhe agradava o meu jeito bobo. eu contava meus planos, e seus planos e meus planos de repente se encontravam em alguma curva oblíqua e tudo aquilo era muito espontâneo e cúmplice. queríamos aprender um ofício, nos sentíamos de certa forma, inúteis, limitados pelas fórmulas e letras. lembra dessa foto 3X4 que achei debaixo do banco naquela noite? parece com aquele amigo nosso, o Said. ele foi embora pra Paris, sabia? disse para irmos lá visitá-lo quando quisermos. claro que peço para ele te mandar alguns affiches, peregrina. você quer de algum filme da década de 50, né? disse que quando passar pela Pont Neuf se lembrará d'a gente, e que talvez compre pinhão, talvez leve o trompete, talvez alimente os pombos. do lado de cá, peregrina, você não quer saber de sair do canto onde começou a sua existência. mesmo as suas avencas que cuidava tanto e elogiava tanto, deixaste partir. tudo seu era feito com esmero. todos gostavam de estar ao seu redor, mesmo quando só dizia tolices. sim, me lembro sim de como tínhamos as mãos em forma de conchas, como quem se doa com delicadeza e cuidado. seu rosto tinha cheiro de nuvens trêmulas e traços intumescidos aonde deslizava meus dedos, meu nariz, a língua. cortávamos o tempo e o espaço com o riso, assassinando com prazer todos que se opunham à nossa dança, extirpando todo o constante e igual, abraçando o efêmero com gozo. me dá a mão, vem... olha, deixe esse violeta e esses perfis que passam de lá pra cá e pulsam em sua frente te sufocando. vem, os cães também já estão dormindo. olha lá fora olha, é Vênus que veio se despedir. vem peregrina, vem criança; assim, nessa cadência assim, abraçados assim e sempre e depois retornando... (Da capo)

Tuesday, February 13, 2007

Recital

Sentado ali naquela poltrona mal-cheirosa as coisas eram mais fáceis. Nada realmente acontecia. Sentia medo de que algo de muito especial realmente pudesse acontecer em sua vida. Não suportava a idéia do peso de uma possível responsabilidade que somente um fato novo poderia proporcionar. A presença constante dessa ausência era algo de repugnante. Repugnante também era mover-se, imprimir movimento a algo. Do sorriso das pessoas só guardava o escárnio – que está contido no gesto como um ônus irônico numa parcela de um décimo, não mais – na lembrança. Divertia-se com os animais, mas desses somente tem recebido visitas esporádicas de morcegos, bruxas e lacraias em horários não muito convenientes, atrapalhando um pouco mais o que já era difícil no dia-a-dia: pegar no sono. Havia um mês que abdicara também dos hábitos higiênicos. Chegara a uma lúcida conclusão de que tais hábitos não passavam de postulados falaciosos e que através de seus pêlos, orifícios, poros, piolhos e fezes conhecia melhor a si mesmo. Podia passar horas a fio observando uma gota de suor escorrendo entre os pêlos de seu peito até alcançar o porto seguro do umbigo ou sentir o rastejar infinito de pequenos parasitas descendo sua cabeleira até enfim caírem sobre seus ombros. Era capaz de compor extravagantes recitais ou mesmo de escrever magnânimos tratados teológicos após alguns instantes de contemplação destes pequenos acontecimentos. Mas optava não fazê-los. Toda a arte ou metafísica já não eram dignas de sua companhia.

Houve um tempo em que aquela casa havia sido palco de luxuosos encontros aristocráticos, onde a nata da beleza e das finas artes se agrupava para ceias voluptuárias regadas a boa música e saraus. Aqui e ali ainda se observava os resquícios de uma vida reta e afortunada, agora entrelaçada a infiltrações, poeira, mofo e musgo. No banheiro e na cozinha, azulejos vindos do Porto; os talheres de prata vindos de Paris; a louça de Pequim; um piano de cauda austríaco, tapeçaria turca e um candelabro milanês. Passeava agora por ali um obsceno, ostentando como medalha para o teto que o cobria a podridão e o cinismo. Orgulhava-se daquilo tudo, de ter trazido ao chão toda a riqueza, de ter desatado os mais firmes laços de afetividade com o mundo. “Da merda viemos e à merda voltaremos” pensava.

Certa feita, numa dessas noites de insônia, sentou-se no chão do banheiro e resolveu testar a resistência de suas pálpebras, negava-se a piscar os olhos. Depois de algumas horas lacrimejando, vendo vultos e mandalas multicoloridas percebeu que havia um pedaço de papel saindo da fissura de um dos azulejos da parede. Coçou os olhos sem pressa e voltou a atenção para o objeto. Tratava-se de uma pequena ponta de uma tira de papel, como aqueles que encontramos nos biscoitos da sorte chineses. Puxou um pedaço do papel e leu “X”. Aquilo o estremeceu de uma forma que não havia sentido há muito tempo. Sentiu um fisgar na espinha dorsal e se sobressaltou. “O que diabos vem a ser ‘X’? Como pode?”. Não pensou duas vezes: se lançou contra o azulejo decidido a encontrar a resposta daquele enigma absurdo. No restante do papel se lia somente “BO”. “ ‘BO + X = BOX... Mas BOX? Como assim BOX? Deve haver mais alguma coisa, mas não, não! As bordas estão simetricamente recortadas, o papel não está rasgado a não ser pelo meu próprio esforço de retirá-lo do azulejo quando obtive o ‘X’.... E agora cá estou: ‘BOX’! É um absurdo! Que merda é essa de ‘BOX’?” Não conseguia mais voltar ao seu centro. Lembrou-se de que acompanhou todo o processo de construção da casa. Havia sido enfático quanto à disposição dos azulejos que formavam um mosaico pitagoricamente harmonioso. Aquilo era um deslize indesculpável, uma afronta deveras. Como poderiam ter deixado passar uma coisa dessas? E o mais intrigante: como não teria percebido essa verdadeira insurreição materializada em celulose e tinta que passara todo este tempo rindo de seu desleixo? “BOX, BOX, BOX, BOX...”, repetia em voz alta tentando decifrar o temerário enigma da parede. Fazia cálculos euclidianos, associações de idéias, buscava raízes etimológicas da palavra, significados figurativos, numerologia, escrevera até uma poesia concreta... De nada adiantava todo o esforço e os anos de erudição. Sentia que aquela esfinge estava para engoli-lo.


“BOX; B-O-X; BOX!!!!!!” Estava convicto então de que aquilo só poderia ser obra de um diabo zombeteiro que o espreitava durante todos esses anos de decomposição. Raciocinou e chegou à única conclusão possível: “...reparar a casa, tomar um banho, fazer a barba e vestir roupas. Só assim conseguirei a resposta e o espírito maligno me deixará enfim em paz.” Pôs-se a limpar a casa de forma obstinada. Limpava cada canto empoeirado. Descobria a origem de cada infiltração, consertava-as e depois cobria com argamassa a parede castigada. Arrancou todo o musgo, bateu fora todo o mofo das almofadas. Limpou a cozinha, as louças, os tapetes, o candelabro, até afinou o piano. Depois de tudo encheu a banheira, tomou seu banho e fez a barba. Vestiu roupas e sentou-se na sala. A casa parecia nova naquela madrugada e até o perfume da dama da noite resolveu fazer uma visita. “Está tudo como o diabo queria, tudo em seu lugar”. E puxou do bolso os dois pedaços de papel, o “BO” e o “X”. Mas a resposta não vinha. “B,O,X... Vou esperar mais um pouco. (...) Quem sabe não vem um sinal. (...) Eu sei, eu sei, só pode ser... Onde estará? Falta, falta o sinal! Ele vem, ele virá! Hahahaha!!! Eu vou conseguir! Hahahaha! Ele achou que ia me pegar! Mas eu vou esperar... (...) Cadê?!? Cadê?!?! (...)” Estava absorto em especulações, a ansiedade vinha num crescendo. A respiração ofegante, as mãos se esfregando, o suor escorria pela testa... “Onde está?!? Ooondeeee?!?” O assombro já o dominava por inteiro, sentia o coração bater em seu peito como uma marreta, o sangue que subia o sufocava. Era impossível continuar esperando a resposta, corria desesperado pela casa gritando e rasgando as roupas, batia afoitamente as duas mãos contra o piano proporcionando um espetáculo macabro. “BBBOOOOXXXX!!!!!!!! BBBBBOOOOOOXXXX!!!”

“OLHA O PI-CO-LÉ!”,o ambulante aproveitava a grande e inesperada movimentação daquele dia quente do bairro. Os vizinhos esperavam ansiosos na porta o desfecho da investigação, pois haviam passado por uma madrugada de puro terror. Há muito, sequer viam luzes acesas naquela casa, e de repente a noite é irrompida por um pandemônio de gritos e estrondos. O mal-estar era visível naqueles rostos afoitos e temerosos. “Só pode ser assombração”, dizia uma senhorita franzina à amiga. “Não há mais moralidade e decência nos dias de hoje, vocês ouviram aqueles gritos? Isso pra mim é baixaria!” assuntavam três aposentados. Enfim o detetive sai da casa e põe-se ao interrogatório. Segundo ele não havia indícios de um assassinato, mas o defunto não tinha identificação alguma. Ninguém por ali também conhecia o causador de todo aquele picadeiro infernal que mudou a rotina maçante do bairro. O oficial, intrigado, compra um picolé e põe-se de lado tentando encaixar as peças daquele quebra-cabeça sinistro que se lhe apresentava. Nesse momento surge misteriosamente um senhor maltrapilho e pestilento que entrega ao investigador um pequeno pedaço de papel. O homem toma o papel e desdobra-o para ler “Bartolomeu Otaviano Xavier”. Quando levanta a cabeça novamente, nota que o sujeito havia desaparecido, deixando para trás somente o seu cheiro repugnante.