há dias que corria pela selva com as orelhas em riste, o olhar vítreo, a boca espumava sangue. todo o pêlo espesso e sujo de lama e pó, carrapatos atrás das orelhas, cravos e espinhos nas patas. renunciara à dor, ao cansaço e à sede. corria entre galhos e pedras e rios e só. no vale teve uma visão. não sabia ao certo se era uma visão. num instante estava correndo, e de repente um estampido cessou-o. o olfato trouxe-lhe lembranças escolares, memórias marginais e odores de cozinha; um canto epopéico esmoreceu-o. depois, era como se canais de tevê zapeassem em flashes de milésimos de segundos (___________) e acordou na relva. o sangue escorria pela barba. agradava-lhe o gosto metálico do líquido vermelho-amarronzado. po(^)r (su)posto era um cão que sabia não(-)ser pois não pensava. assim seguia raspando os solecismos cartesianos, fazendo-os delirar até que seus arcos catenários perdessem a solidez. levantou-se e continuou a correr pelo asfalto, a fuligem contra o focinho e os olhos, a garoa fina sobre o seu pêlo, o cheiro podre dos esgotos. os prédios e barracos passavam em alta velocidade em sua volta tentando esmagá-lo enquanto esganiçava o seu escárnio contra todos os viciados em fantasias. o sangue banhava-lhe o peito. seguiu em saltos adiante, os olhos em brasa em sua busca infinita pelo último dos girassóis, deixando para trás somente o rastro de sangue dos parasitas.
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1 comment:
ooo totó...
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