Between midnight and dawn, baby we may ever have to part,
But there's one thing about it, baby, please remember
I've always been your heart.
Johnny Temple
(uma esfera oca e protuberante. assim é a minha cabeça de noite quando coloco os meus fones de ouvido. uma esfera oca e protuberante. Micaela me espera na cama. não se incomoda com a minha mania de bater com as pontas dos dedos na cabeça. faço isso para ter certeza de que está oca, de que as pancadinhas ecoam nos ouvidos tampados. não, não é bem isso. é somente mais uma forma de expressar a minha monotonia, mas me divirto com o passatempo assim mesmo. a música termina.) você quer água? não? não querida, não vou deitar ainda, quero fumar... acende um pra mim, por favor? (...) sabe amor, não sei o que você ainda espera de mim. do que estou falando? de tudo isso, todo esse enfado, toda essa indolência e principalmente esse papo de complexidade. por favor, não me interrompa agora. eu sei, eu sei que os cachorros estão latindo. deixe-os. em pouco tempo voltarão a uivar e tudo volta ao normal. (...) tenho saudades dos seus olhos. verdes, azuis, cinzas... hoje em dia só quer falar dessa cor violeta que te sufoca. a misantropia nunca foi o seu forte. Charlotte e Donovan perguntaram por você. pensam intimamente que sou eu o culpado dessa sua decisão bizarra. eles também gostavam de quando você usava as asas, respirava ares alpínicos. basta! o que há de complexo nisso? por que não me cospe na cara então? talvez assim teria certeza de que me ama de fato! sim querida! o amor é feito também de fel! mas tudo o que você quer são os cães, esses lençóis ensebados e falar de seres claviculares. desde quando se tornou tão pudica? clavículas meu bem? gostava dos seus modos para cones, os côncavos e os convexos. ah, claro, tem o faquir! amaldiçôo o dia em que resolvi comprar aquele faquir pra você! o quê? você quer que eu o chame novamente? ok! entre faquir! faça uma apresentação, entretenha-a. ai, ai... a corda bamba mais uma vez... bem, ao menos veio bêbado desta feita. aí está! bravo! quebrou a clavícula! justo a clavícula! vá! saia já! pobre homem... gosta de você, gosta de te agradar. outro dia chegou aqui com um corvo num ombro e uma pomba no outro. disse que estava trabalhando num novo número. acho que anda assistindo muitos filmes ingleses e todas essas coisas tolas... não, não durma ainda... tenho muito o que dizer. me escuta, me escuta, presta atenção... lembra de quando nos conhecemos, lembra? como era gostoso te ver cortando o espaço, criando vértices inefáveis com aquele balé vertiginoso! dançar contigo era um sobrevôo infinito. dali de cima podíamos recriar o mundo somente com o nosso suor, o nosso cheiro, a mão que tocava o rosto, a mão que tocava no sexo, a mão que tocava... não! não estou criando amálgamas! não vê que tento chegar naquilo de mais simples e belo que tínhamos? é lá que quero chegar: nas noites que caminhávamos seguindo as pistas das luzes de janelas entreabertas da cidade, revoluteando com desconhecidos e vagabundos que nos acompanhavam até uma pracinha muito íntima onde nos deixavam para bebermos vinho e nos beijarmos. você falava dos seus amigos e amantes, eu fingia prestar atenção em tudo, e você sabia disso, mas lhe agradava o meu jeito bobo. eu contava meus planos, e seus planos e meus planos de repente se encontravam em alguma curva oblíqua e tudo aquilo era muito espontâneo e cúmplice. queríamos aprender um ofício, nos sentíamos de certa forma, inúteis, limitados pelas fórmulas e letras. lembra dessa foto 3X4 que achei debaixo do banco naquela noite? parece com aquele amigo nosso, o Said. ele foi embora pra Paris, sabia? disse para irmos lá visitá-lo quando quisermos. claro que peço para ele te mandar alguns affiches, peregrina. você quer de algum filme da década de 50, né? disse que quando passar pela Pont Neuf se lembrará d'a gente, e que talvez compre pinhão, talvez leve o trompete, talvez alimente os pombos. do lado de cá, peregrina, você não quer saber de sair do canto onde começou a sua existência. mesmo as suas avencas que cuidava tanto e elogiava tanto, deixaste partir. tudo seu era feito com esmero. todos gostavam de estar ao seu redor, mesmo quando só dizia tolices. sim, me lembro sim de como tínhamos as mãos em forma de conchas, como quem se doa com delicadeza e cuidado. seu rosto tinha cheiro de nuvens trêmulas e traços intumescidos aonde deslizava meus dedos, meu nariz, a língua. cortávamos o tempo e o espaço com o riso, assassinando com prazer todos que se opunham à nossa dança, extirpando todo o constante e igual, abraçando o efêmero com gozo. me dá a mão, vem... olha, deixe esse violeta e esses perfis que passam de lá pra cá e pulsam em sua frente te sufocando. vem, os cães também já estão dormindo. olha lá fora olha, é Vênus que veio se despedir. vem peregrina, vem criança; assim, nessa cadência assim, abraçados assim e sempre e depois retornando... (Da capo)