Saturday, May 27, 2006

Un peu de sérénité

enfim respirar!
poder deixar para trás os velhos lençóis, as letras esparramadas pelo chão, os pressupostos em cima da cadeira... abandonar hipóteses, fundamentos e argumentações embaixo da cama ou no cesto de roupas sujas... escutar novamente sem precipitação alguns solos do Miles ou do Coltrane e sorrir; caminhar com o olhar despreocupado, com o passo leve e sem rumo, simplesmente por caminhar... sob o sol do meio-dia as cores se insinuam com mais fulgor, hora da sombra mais curta.
esquecer um pouco do retorno egóico, das linhas subjetivantes que "lobotomizam" as singularidades... so long paranoia, farewell anxiety! don't want to hear about you both so soon!
vagar somente, como num lento sobrevôo despretensioso...
e então, deitar. e dormir serenamente,
pois valeu a pena.

Tuesday, May 23, 2006

Para manter um velho estado de coisas *

Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.
Meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
Eu sou assim, assim morrerei um dia.
Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia.
Tenho pena daqueles que se abaixam até o chão
Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte deste enorme batalhão,
Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão.
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim.

Paulinho da Viola


"nao tendo outra alternativa o sol brilhava sobre o nada de novo"

Samuel Beckett


"numa mesma ruína,
a alma enferma e um corpo que recorda
num mesmo delírio, seus olhos e o pó"

Lurdinha Baixo-Astral


*Saravá Lurdinha e Beckett

Monday, May 22, 2006

"Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
e como tudo que nasce, morrendo
à medida que o tempo nos desgasta.
Amor, o que renasce."

Hilda Hilst

Sunday, May 21, 2006

O tempo e o/a fragment o/ação

por estar já inserido no horizonte absoluto, não aquele horizonte bobo de um "sujeito" que tenta observá-lo e o "objeto" que se afasta na mesma medida, mas esse Uno-Todo dado imanente (a porra nenhuma, só a si mesmo) que teima por incertar o pensamento. Cronos espia e urge/ruge qual cão danado em seus traços coexistentes, estratigráficos, as minhas vertiginosas e dolorosas escolhas que clamam por respostas, posicionamentos, defesas ou até mesmo problemas. corpo decrépito movido à cafeínaetabaco, que às vezes dança, às vezes sobe uma escada com o pé e o pé, mas vive um devir de alerta e desperta nas madrugadas de todos os dias para engolir mais fumaça e ler algum conto:

"- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo sutil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor e da Morte. Percebe? Uma dessas abstrações que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, e a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?(...)"
Herberto Helder - "Estilo"


faz frio.


Thursday, May 18, 2006

Da histeria dos universais

"Empacote o mundo e todo S é P."

Monday, May 15, 2006

"In vino veritas"

...sob o céu de inverno diante da dor dos outros. sim, são vários os crimes, em widescreen ou na Paulista. tempos sombrios, tristes pessoas. o riso é "o corte" necessário, a nossa linha de fuga e nosso porto seguro: nos metamorfoseamos crianças - o estágio mais sublime. sur les dents, dans la bouche, na caudalosidade infinita da saliva que flui entre línguas do não-sentido, selamos o nosso pequeno e doce crime. e até o amargo quinino dá lugar à brandura quando do nomadismo "flâneur" refletido nas vitrines nos vendo passar... mas é constituída também de fúria aquela velha e caduca senhora que mora no fundo da garrafa. a fúria do calor e da cor: cor de crime indelicado. mas aceitamo-la como aceita-se as marcas eternas do corpo, as epistèmes da pele, o órgão mais profundo. e junto com os sátiros e ninfas e seus bandoneons, cellos, violinos, vibrafones e xilofones, contraltos e tenores, sopranos e baixos - allegro, presto, trágico! - dançamos mais uma vez com aquele deus assimétrico e cínico do Olimpo. je vais avec toi ma chérrie! je vais toujours avec toi!

Tuesday, May 09, 2006

tinha sido a última vez que se viram. era também a primeira. sorrisos paixões compartilhadas e muitos cigarros no cinzeiro. o encontro proporcionando a expressão no lugar da história. o triunfo da delicadeza. e nada pode privar-lhes da lembrança do cheiro de caramelo no casaco azul e aquele último tango na voz de Gardel:

Silencio en la noche/
ya todo esta en calma/
el musculo duerme/
la ambicion descansa...