Wednesday, August 16, 2006

Behind the curtains (ou sobre homens e ratos)

Francis Bacon - "Study from the human body", 1981

ah! pequenos fragmentos de miséria que se revelam no amarelo dos dedos indicador e médio e em mais um retrato em branco e preto. tentar ser outro, abstrair o presente numa bebida, num cigarro e num jazz orquestrado.

o tempo, a memória... sorvo o suco encantador que me ofereces do seu claustro de prazeres, et alors, frenesi, fervor, serenidade e metafísica (chocolates, obviamente, não é pequena imunda?). toda a cidade se silencia nessa noite, mais uma vez.

ah! mas lembram-me que a casa está vazia e que a mulher não volta. "sempre retorna" diz o amigo "em maior ou menor intensidade, nunca igual, mas sempre retorna!". mesmo enfastiado de tomar provas dessa assertiva, mesmo sabendo que em algum lugar hei de reencontrá-la para nos reduzirmos a um faixo de luz que escapa de uma água-furtada qualquer para a cidade enfumaçada, retruquei categoricamente:"ta gueule mon pote! se ao menos soubesse da anestesia da ponta da minha língua!"

por isso, está decidido: vou-me embora para longe, para algum lugar onde possa ser pura expressão. quero tornar-me um estrangeiro até mesmo para mim e adotar um nome elegante qualquer e criar toda uma nova história fundamentada em sorrisos amarelos e condescendências: "Tristan Reveur, a votre service! ... pas du feu monsieur, mais j'ai un briquet bic bleu si vous voulez..."

ontem encontrei com alguns ratos. elas não gostam dos ratos, a não ser uma e eu e mais dois nesse picadeiro de realismo e gentileza vulgar. houve um dia em que forramos suas barrigas com pedaços gordurosos de queijo pachá. "merci mounsieurs et madames! vous êtes trés gentils!" diziam, gesticulando as suas patinhas vorazes. "mas, você aí - disseram-me - não bata a cabeça contra o ocaso! o ocaso, oras pois!". lição número 1 do evangelho de Ratatustra. ignorei o alerta e resolvi permanecer: vi a sua silhueta saindo do banheiro. não, não era você. o ocaso me pregara outra peça. mas eu também já não era eu, e sim algum qualquer deitado olhando para a luz, sentindo novamente aquele violeta pulsante que vai tomando conta de tudo. a mulher e outro haviam me explicado que isso era somente um movimento de dilatação do coração. nada para se preocupar, nada para se assustar e, principalmente, nada para se procurar. ainda não, de qualquer forma.

"continue somente brincando com intensidades!" - aconselharam.
"Tristan Reveur, a votre service!" - respondi.



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