Wednesday, July 19, 2006

A dialética dos pêlos

Um pouco de água no rosto, de preferência quente. Mas na casa do Salles não havia uma torneira com água quente. Depois, aplicar um pouco de espuma nas áreas da face e do pescoço, acender um cigarro... Então, é preciso que a lâmina esteja posicionada rente à pele, os movimentos leves e precisos para cima ou para baixo, nunca para os lados. Fazer uma barba era uma experiência sagrada para Salles; para ele, a soberba eficácia dos aparelhos Mach 3 ou Philishave acabaram por destruir a dignidade ontológica de um homem poder desfrutar de todo o tempo que se fizer necessário para melhor aparar seus pêlos do rosto. Isso sem mencionar a indiscutível superioridade da precisão proporcionada por uma boa navalha.

Continuava ali nesse exercício prodigioso, de vez em quando dando um trago em seu cigarro deixando a enorme cinza se espatifar silenciosamente dentro da pia. Pensava em Cole Porter e seus dois preferidos intérpretes (“Afinal, Ella ou Sinatra?”) e no quanto esses exercícios de comparação acabam sendo somente um pequeno jogo onde não há vencedores ou vencidos. “Mas como preferir um a despeito do outro? Chaplin ou Keaton? Pelé ou Garrincha? Bossa nova ou samba? Cachaça ou vodka?” E assim ia, ad infinitum. Nesse momento em que sua mente se encontrava completamente imersa no jogo - em que a única regra consistia em eleger dois titãs de uma mesma categoria, colocá-los face a face no ringue e, antes da luta se iniciar, considerar um empate técnico – seu celular, como um cínico zombeteiro, grita ansioso em seu quarto. Nada deixava Salles mais mal-humorado do que atender um telefone, principalmente no dia e hora reservados para se aparar a barba. Não obstante, sentia uma terrível culpa em não atender uma chamada, por mais que aquilo o incomodasse sobremaneira, não conseguia simplesmente deixar tocar. Sempre se imaginava responsável pelo acaso de não ter respondido uma chamada.

“Violeta.”, murmurou após olhar o visor do aparelho. E, nesse milésimo de segundo que separou a conferência da chamada e o ato de atendê-la, Salles intrigou-se com aquela pequena máquina que tinha em suas mãos. Antes era preciso girar uma manivela para chamar a telefonista, colocar um cone de madeira no ouvido e falar através de um orifício. Pelo menos agora não corria o risco de ser incomodado pelo barulho estridente daquela campainha composta por dois gongos cilíndricos metálicos separados por um pequeno martelo que os vibrava em uníssono quando recebia ligações.

- Oi? - atendeu secamente.
- Sal! - a voz de Violeta estava trêmula, o nervosismo era óbvio - Querido, é que eu estou com pressa, me explique o que é dialética do discurso...
“Por sorte, tudo vai muito bem no melhor dos mundos possíveis”. Salles lembrou-se dessa frase, lida em algum livro, que fazia alusão à “Cândido”. - O quê?!?! – perguntou subitamente, ainda meio sem entender, procurando se inteirar de mais detalhes daquela situação absurda.
- Estou saindo da aula e meu professor falou isso, me ajuda...
- E você precisa disso nesse instante? - “ Onde errei nesse processo? Espuma, navalha, posicionamento da navalha no rosto, o cigarro, espelho na frente para as devidas orientações espaciais, o pensamento no jogo... E agora essa!!! Dialética do discurso em dois minutos por telefone...”
- É Sal! Pra ontem porra! Quebra o galho pra mim!
- Violeta me fala pelo menos o contexto da...
- Não tenho tempo para contextos! Me diz aí o que você puder...
- Tente um dicionário ou...
- Não enche Sal, vai!
- Ok then...

Em tempo recorde, e não com muita destreza na oralidade (que fora sempre o seu fraco, tinha predileção pela palavra escrita), Salles discorreu de Platão a Hegel, de Wittgenstein a Barthes, tropeçando nas palavras, tentando com afinco – e a contragosto - ser claro e distinto num instante em que só obscurantismo e conceitos fugidios vinham-lhe ao pensamento. Noel e sua gagueira apaixonada saltaram-lhe à cabeça naquele instante: “Mu... mu... mulher, em mim fi... zeste um estrago/ Eu de nervoso esto... tou fi... ficando gago”. Tentava se concentrar para não gaguejar, mas também para não rir do sambinha desajeitado do moço de Vila Isabel: “Clareza, distinção, falar pausadamente. Clareza, distinção, falar pausadamente...”. Por fim conseguiu arrancar algum bloco meteórico de incertezas e transmiti-las para Violeta.

- Obrigado querido! Salvou meu dia! Cervejinha no “Vittorio’s” quinta-feira?
- É uma...
- Combinado então. Beijo!
- Beijo!

“CLAP!” Uniu as duas mãos num tapa, balançando-as e olhando para o alto como que numa súplica aos céus. Tentava entender como todas as coisas mais irrelevantes (como a dialética do discurso) de repente se tornaram as coisas mais urgentes. E, no final, como todas as coisas se tornam urgentíssimas! É necessário correr e escrever logo o projeto de mestrado, ou começar uma pós-graduação em criminologia, ou fazer um intercâmbio num cassino em Vegas, ou viciar-se em endorfina e noradrenalina para amenizar os efeitos trágicos da nicotina e do álcool, ou... Seria possível uma conversa daquelas nos tempos idos de mil novecentos e Alexander Graham Bell? Alguém realmente se daria ao trabalho de tirar o cone de madeira do gancho, rodar a manivela, chamar a telefonista através do orifício e indicar-lhe o número a ser discado e depois “Salles! E a dialética do discurso?!?!?”

Sentou-se para fumar outro cigarro e lembrou-se de Violeta, o sorriso de Violeta, a boca de Violeta que desenhava mentalmente e com os dedos... E então apoiou o rosto na mão e “Que merda!”, esquecera completamente da espuma no rosto. A barba! Voltou ao banheiro e encarou seu reflexo no espelho. Limpou o rosto e fitou o seu duplo no espelho: “É preciso recomeçar.” Era mesmo necessário recomeçar... Todo aquele dia não se justificaria sem que o combinado internamente não se consumasse. Aquele momento que se repetia semanalmente rompia a barreira de ditames higiênicos ou de paradigmas estéticos. Aquele momento era o encontro marcado consigo mesmo, o seu instante meditativo, a sua linha de fuga. Então, antes de recomeçar, desligou o Nokia e toda a sua urgência. Retomou nas mãos a navalha e amolou-a num pedaço de couro velho. Molhou novamente o rosto e aplicou a espuma. Acertou a navalha na pele e com movimentos rápidos e singelos ia desenhando no rosto o seu duplo para a semana que estava por vir. Forçoso era o pensamento voltar-se novamente para o jogo: “Melville ou Kafka? Godard ou Truffaut? Lasanha ou cannelloni? Rimbaud ou Blake? Noel ou Cartola?” ad infinitum...

1 comment:

Anonymous said...

ad infinitum...

muito bom, fiquiridodusinfernu...

seu melhor conto, até agora...