Sunday, April 16, 2006

"Any given sunday"

O pescoço sua. Tiro a coberta; cubro-me novamente. Acordo, cochilo mais um tempo. Viro o travesseiro. A mente a mil: "são vários lobos; não, é um só...", "it´s not going to stop" it ain´t gonna get easy even..., "eu vivo num poço com o meu rato", "number nine number nine number nine number nine". O calor aumenta. Acho que é febre e tiro a camisa, jogo o edredom no chão e abro a cortina. Rolo na cama novamente. Pelo menos a alergia passou."QUEM É?!?!?!?!?!?!" Um grito estridente e trêmulo corta o negrume da madrugada ardente. Salto da cama de supetão: "O QUE FOI MÃE??!!", e me dirijo a seu quarto. "Nada Fernando... foi um pesadelo horrível". "Quer água?". "Não", e vira-se para o outro lado.

É o domingo que chega lentamente trazendo o pânico. Existem poucas coisas tão hostis no mundo quanto vivenciar os dias de domingo. Sua aura angustiante não perdoa personne. Chego a crer no milagre da transcendência aos domingos (acho que é por isso que elegeram o dia para se frequentar as missas...).Há o mistério no primeiro dia. "Miserere Nobis". Não consigo compreender como alguém pode se sentir feliz aos domingos. Duas coisas somente aliviam a sua presença: o futebol e algum churrasco. Esse ano vai ser um pouco pior: meu time joga aos sábados... "Il fait dimanche quand tu souris" (faz-se domingo quando você sorri). Bela música, mas não corresponde com a minha realidade. Ou a garota do Henri Salvador tem um sorriso assustador ou os domingos da Guiana Francesa são alotópicos.

Mas, de todos os domingos do mundo, não existem piores do que os domingos belorizontinos. Parece um câncer que vai destruindo tudo que tente enfrentá-lo. Não acontece absolutamente NADA nesses dias na cidade. Mas o que posso esperar de uma cidade que se vangloria por ter tantos bares e, entretanto, 90% deles fecham 1:00 da madrugada? Certa feita, num domingo qualquer, estava indo ao cinema com uma amiga (M.) recém-chegada de Montes Claros. Estávamos caminhando no limiar do Centro com Lourdes, não havia nada na rua; sensação de estar entrando numa cidade fantasma do Velho Oeste. Mais que de repente, surge impávido, um batalhão de jumentos invadindo as ruas, sedentos por demarcar terreno (e o fazem, se é que vocês me entendem....). Olhei para a cara estupefata de M. que não acreditava em seus próprios olhos: "Que surreal!", foi a única coisa que conseguiu pronunciar diante do acontecimento. Realmente, uma cidade assim não pode ser mesmo séria. Ou então é o Véu de Maia dominical que cega a todos.

NO PURGATÓRIO:
"Seja bem-vindo! Qual é a sua história?"
"Eu me matei..."
"Bem, você sabe como são as regras. Vou ter que te mandar para o andar debaixo. Não há perdão para o que você fez..."
"Mas (...)"
"Meu filho, não há porém para o seu caso! Você é um decadente! Sabe o que pensamos sobre o suicídio!"
"Por favor, tente compreender, era domingo..."
"Bem, aí o caso muda um pouco... Deixe-me consultar o regimento interno. Hmm..."
"O quê?!?"
"Bem, de onde você vem?"
"Sou brasileiro"
"Ahh! Então pode passar! No parágrafo nono do artigo setecentos e um do regimento diz que quem se suicida nos domingos tem carta branca."
"Pôxa, então pra quê o senhor quer saber de onde venho? Está fazendo uma seleção de estirpes? Isto é preconceito! Não acredito que exista preconceito até aqui!"
"Deixe-me explicar. O domingo é uma falha na Matrix, foi um erro do Programador - faz o nome do pai."
"Pois então! Mesmo assim o domingo é do mundo inteiro... Por que você me perguntou de onde venho?"
"Acontece que estamos testando um anti-vírus, mas ele só deu certo na Guiana Francesa. Nesse caso específico, quem se suicida num domingo da Guiana Francesa não tem regalias...Você já escutou 'Il fait dimanche', do Henri Salvador?"
"Oh! Bien sûr..."

13 comments:

Anonymous said...

seu post sobre domingos definitivamente salvou meu domingo e garantiu umas boas risadas... nem o coelhinho da páscoa tinha me deixado tão alegre!!!

Anonymous said...

Clap! Clap! Clap! Volto aqui depois para der melhor formato a esse aplauso: reação primeira e inevitável.

Fernando said...

Ei fabi. Que honra! Mas aposto que você disse isso porque não ganhou chocolate... rss...

Prezado amigo Jofre! Só o espírito benevolente da Páscoa para trazê-lo por essas bandas! hehehe! Espero o novo formato então, abraço!

Anonymous said...

hehehe... muito bom... mas tente ver pelo lado bom, fiiquiridu... poderia ser pior:

1:pelo menos neste ano o atlético não vai contribuir para estragar os seus domingos;

2:as pessoas te convindam para churrascos nos domingos, não para sarais de "poesia";

3:a zona não fecha;

4:é dia de culto, logo, as chances de um testemunha de jeová te acordar às onze da manhã para vender revistinhas diminui consideravelmente;

5:and last, but not least, enquanto o pessoal da sua casa vai almoçar na casa de algum parente, você pode curar a ressaca fumando, bebendo café e ouvindo iggy pop sem maiores incômodos... (esta funciona comigo, hehehe)

Anonymous said...

Belo post, camaradinha, belo post!

Fernando said...

Hehehe... Trickarowsky , você me lembrou o final da "Vida de Brian": "Always look to the bright side of the life...". Mas vamos lá, pela ordem:

1. Há muito tempo desisti de assistir aos jogos do Galo para vê-lo saindo vencedor. Se ganhar é lucro. O prazer está contido na partida em si, em ver a camisa alvinegra em ação...;

2. Concordo em número, gênero e grau;

3. Rsss... Cada um elege a missa que lhe apraz. O meu santuário é o meu quarto, com o meu autismo;

4. Ninguém consegue me acordar às onze da manhã no domingo;

5. Quando você copiar a coletânea da Iguana (lembra que você ficou de fazer uma cópia?), talvez eu faça o mesmo.

Fernando said...

Valeu Brasil!
Abraço!

Anonymous said...

só porque eu falei do Galo, hein...


mas não foi no domingo, né?


GAAAAAAAAALOOOOOO!!!!

p.s. projeto Tóquio rides again... rsrsrs

Anonymous said...

ei, eu ganhei chocolate!

Anonymous said...

Melodia faz bem à vida. Por mais inebriante que a prece acalme bastante.

Fernando said...

sim marcelo, melodia faz bem... mas não nos esqueçamos da preciosidade do ruído.

Anonymous said...

O ruído passa pelo silêncio antes de ser. E como pensamento tb flutua.
Grato,
Marcelo

Anonymous said...

Já no fluxo da palavra corre solto um s.
Porque juntar as letras pode fazer chorar ou rir.
E sei lá quem és
Clarice deixou eu nem saber nem entender.
Não quero.Preciso isso.
Letras nos fluxos.
Sem saber o caminho de chegada.
Mas o ponto de largada vem dos escombros muros interferentes pianos pretos noturnos homens desconhecidos sobrenomes semelhantes de raízes engraxadas de lama.Clarice mandou lembranças na maçã.Por acaso vc tem um nariz vermelho sobrando, Sr.virtual.interrogo e fim.